Análise da urina pode revelar como o corpo envelhece

Criado por pesquisadores da China, o teste poderá ser usado na prevenção de doenças comuns em idosos.

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Publicado em: 28/02/2018

Ao analisar o envelhecimento, médicos e cientistas podem considerar tanto a idade cronológica quanto a biológica. A primeira está atestada nos documentos. A segunda depende da quantidade de danos oxidativos sofridos pelo organismo, o que, segundo especialistas, pode revelar a probabilidade de ocorrência de doenças relacionadas à idade de forma mais confiável do que a quantidade de anos vividos. Em busca de uma maneira de avaliar esse parâmetro estratégico, cientistas da China desenvolveram um teste de urina que rastreia os efeitos da oxidação. A técnica rendeu resultados positivos ao ser testada em mais de 1,2 mil indivíduos. Detalhes do trabalho foram divulgados na última edição da revista Frontiers in Aging Neuroscience.

Os autores do estudo explicam que, embora todas as pessoas nascidas no mesmo ano tenham a mesma idade cronológica, os corpos envelhecem em ritmos diferentes. Isso significa que, apesar do risco de muitas doenças aumentar com a idade, o vínculo entre a quantidade de anos vividos e o desgaste do organismo não é tão grande, levando pessoas com a mesma idade a terem condições de saúde bem distintas. Há, portanto, uma forte influência dos danos celulares, que são influenciados por inúmeros fatores, como a genética, o estilo de vida e o ambiente em que a pessoa vive.

Um mecanismo já identificado ligado a esse processo é o de produção de radicais livres. Essas moléculas de oxigênio alteradas e instáveis não podem ficar sozinhas, o que as obriga a se ligar a qualquer estrutura que lhes dê estabilidade, provocando, assim, a oxidação. A união é maléfica ao corpo humano. “Subprodutos de oxigênio produzidos durante o metabolismo normal podem causar danos oxidativos a biomoléculas em células, como o DNA e o RNA. À medida que envelhecemos, sofremos um aumento do dano oxidativo e, assim, os níveis de marcadores oxidativos aumentam em nosso corpo”, detalha, em comunicado, Jian-Pi Cai, um dos autores do estudo e pesquisador do Laboratório de Geriatria do Hospital de Pequim.

Esses sinais de estresse oxidativos chegam à urina, o que, segundo os autores, viabiliza a realização do exame. A equipe monitorou um desses marcadores, o 8-oxoGsn. Em estudos anteriores, feitos em animais, os cientistas descobriram que os níveis de 8-oxoGsn aumentavam na urina com a idade. Para ver se o mesmo ocorria em humanos, eles mediram o marcador em amostras de urina de 1.228 chineses com idade entre 2 e 90 anos, usando uma técnica de análise rápida chamada cromatografia líquida de ultra-alto desempenho.

“Encontramos um aumento dependente da idade no 8-oxoGsn urinário em participantes de 21 anos ou mais. Portanto, o 8-oxoGsn urinário é promissor como um novo marcador de envelhecimento”, conta Cai. A pesquisa também mostrou que os níveis da substância foram aproximadamente os mesmos entre homens e mulheres, exceto em mulheres na pós-menopausa, que apresentaram níveis mais elevados. Isso pode ter sido causado pela diminuição dos níveis de estrogênio durante a menopausa, já que esse hormônio é conhecido por ter efeitos antioxidantes, segundo os cientistas.

Larga escala
Segundo Cai, a técnica de análise rápida pode ser útil para estudos sobre envelhecimento em larga escala, já que o método pode processar amostras de urina de até 10 participantes por hora. “O marcador urinário 8-oxoGsn pode refletir a condição real de nossos corpos de uma forma muito melhor do que a nossa idade cronológica e nos ajudar a prever o risco de doenças relacionadas à idade”, explica.

Gustavo Guida, médico geneticista de Brasília, considera o exame muito promissor, mas ressalta que o resultado da pesquisa ainda é limitado. “Conseguiram demonstrar uma curva de discreto aumento de acordo com a idade, testaram um bom número de pessoas, mas somente indivíduos saudáveis, sem exposição a fatores conhecidos de estresse oxidativo — excluíram consumo de álcool, fumo ou medicações por duas semanas. Ainda assim, a ideia do pesquisador acompanha a tendência de buscar marcadores preditivos de doença, que permitam iniciar uma intervenção antes de o problema se manifestar clinicamente”, diz.

O especialista destaca o aspecto preventivo do exame, caso ele chegue à área clínica. “Esses marcadores ainda não estão prontos para uso, mas esse seria o principal objetivo. Demonstrar, de forma clara, um processo de senescência pode ser um grande incentivo para mudança de estilo de vida e início precoce de terapias protetoras”, explica. Guida ressalta ainda que o estudo merece ser mais explorado. “O ponto mais importante seria conseguir desenvolver esses marcadores como método de rastreio. O próximo passo relevante é passar a gerar dados de como esses marcadores se comportam em pessoas doentes e como evoluem na mesma pessoa através do tempo”, sugere.

 

Fonte: CB
Edição: F.C.

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