Enfrentar doenças de forma positiva pode melhorar resposta ao tratamento, diz especialista

Segundo o neurologista João Segundo, que faz parte da equipe da Oncomédica, atitude pode ser o diferencial para lidar com adversidades.

Publicado em: 23/09/2019

O neurologista João Segundo falou sobre dor crônica e como enfrentá-la.

Para o neurologista João Segundo, que faz parte da equipe da Oncomédica, cultivar uma postura positiva diante das adversidades, sejam elas cotidianas ou o surgimento de uma doença, é um passo importante para melhorar a resposta de qualquer tratamento.

Formado em neurologia pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, fez uma segunda residência em dor e pós-graduação em neuromodulação não invasiva também pela USP.

Na entrevista a seguir, o médico falou sobre a importância de desenvolver estratégias para encarar as dificuldades, abordou os tratamentos voltados para a dor, o trabalho com a equipe clínica e ainda destacou a relevância da meditação como coadjuvante no tratamento e na melhoria da qualidade de vida dos pacientes.    

O que faz um médico da dor? O que diferencia a sua especialidade das outras que também tratam esse sintoma?

Nos pacientes com dor crônica, principalmente, nos pacientes que tem dor há mais de três meses, esse sintoma dor acaba se tornando uma doença. Quando você trata uma pessoa com dor crônica, você não trata o sintoma dor da mesma forma que você trata uma dor provocada por uma torção no tornozelo, por exemplo, quando o tratamento seria colocar gelo e ficar em repouso. Nesse caso, a dor funciona como um alerta de que você tem que cuidar daquele local, mas depois o sintoma desaparece. É diferente quando a dor se instala, porque aí o paciente começa a mudar os processos de interpretação da dor no cérebro. Nesses casos, três dimensões são afetadas: a dimensão sensitiva, que se refere ao que o paciente sente e conta para o médico; a dimensão afetiva, que altera, particularmente, o seu humor, podendo resultar em ansiedade, depressão, ataques de pânico; e a dimensão cognitiva, que modifica a forma como o paciente interpreta a dor, porque quando esse sintoma afeta o cérebro por vários meses, o cérebro aprende com aquela experiência e quando há um gatilho, a dor aparece, gerando um sistema complexo de resposta que requer tratamentos e abordagens específicas.     

E no que consiste o tratamento voltado para dor crônica?

O tratamento deve ser amplo e muitas vezes é direcionado para o cérebro e não para o local em que o paciente sente dor. Mas isso vai depender da queixa, da doença que o leva ao consultório e da avaliação de cada caso. Um ponto importante que procuro saber logo na primeira consulta é o status mental do paciente, ou seja, como aquela pessoa entende o que lhe acontece, se ela interpreta, por exemplo, a doença como uma espécie de catástrofe ou se ela é alguém que tem uma postura de resiliência, que entende os acontecimentos da vida de uma forma mais positiva, ainda que em condições adversas. Porque o que observamos em consultório, e muitos estudos confirmam, é que quando a dor se torna o centro da vida do paciente, quando ele considera aquela situação a pior do mundo, a resposta ao tratamento não é a mesma de uma pessoa que enfrenta.   

Então, ter uma postura mais positiva faz diferença mesmo?

Ninguém está dizendo que é fácil, sentir dor é ruim e sentir muita dor é pior ainda, mas as pesquisas vêm mostrando que o enfrentamento das adversidades de forma positiva e mesmo de doenças que surgem pode consistir num grande diferencial na resposta emocional e física do paciente.  

E no caso dos pacientes da Oncomédica, em que a dor está relacionada ao câncer, como é feita a abordagem do tratamento?

Aqui na Oncomédica eu tenho feito esse atendimento relacionado a dor crônica há 4 anos, mas  quem inicia o tratamento é um oncologista, até pela prevalência da sua área, e o especialista em dor entra para tratar de forma específica o sintoma. Nós temos uma série de medicamentos para aplicar no alívio da dor do paciente oncológico. Mas a adoção deste ou daquele tratamento é discutida com a equipe e em conjunto procuramos ver quais os modeladores de dor que são mais adequados. Temos medicações tanto orais, transdérmicas, com aplicação de adesivos e endovenosas. O tratamento é complexo e a dor é tratada em equipe.

Além das medicações, quais outras formas de tratamento são indicadas para tratar a dor?

A gente sempre orienta o paciente a fazer atividade física porque o exercício regula e também melhora a dor a longo prazo e ajuda a regular o sono. Paciente que dorme mal piora bastante da dor, então, o neurologista, que tem treinamento e está apto a fazer esse controle da dor, trabalha junto com o paciente essa resposta, e procura, em colaboração com os psicólogos da Oncomédica, ver como lidar com as emoções que são prevalentes nos processos de dor. Além disso, existem técnicas como, por exemplo, o mindfulness, que é um tipo de meditação também chamada de atenção plena. A ciência tem demonstrado que a meditação é capaz de ajudar na resposta emocional e física do paciente.   

O senhor poderia explicar um pouco mais no que consiste a atenção plena?

O mindfulness é uma prática bem estudada na ciência desde a década de 70. Quem desenvolveu a técnica foi o médico norte-americano Jon Kabat em 1979. Ele extraiu as bases da atenção plena do budismo, aplicando as técnicas de respiração dessa tradição para tratar a ansiedade, depressão, o estresse. É importante frisar que a meditação mindfulness não tem conotação religiosa. O objetivo dela é mobilizar a mente e o corpo, através da respiração, de forma a superar pensamentos e comportamentos automáticos. Como o paciente oncológico está enfrentando um grande desafio, a vivência dessa batalha pode ser auxiliada pela prática meditativa.

E como funciona o mindfulness?

Hoje você tem comprovação científica de que se você meditar com atenção plena, de cinco a 10 minutos por dia ou por 20 minutos, em alguns estudos, isso resulta numa diminuição da amigdala no lóbulo temporal que regula a parte de estresse e de raiva e que é a parte mais primitiva do cérebro. Quando você está com essa parte mais ativa, você apaga a parte do cérebro que é o lóbulo pré-frontal, que regula o raciocínio, o juízo ou uma percepção mais clara e de empatia, e isso leva a uma confusão mental. Assim, quando meditamos, há uma regulação dessas duas partes do cérebro e o resultado são respostas e sentimentos mais tranquilos e claros.

O mindfulness é realizado sempre sentado? Pergunto isso porque alguns pacientes oncológicos ficam acamados por um tempo maior e seria incômoda a prática sentada.

Dependendo do estado de saúde do paciente, ele não vai conseguir fazer meditação sentado, sem apoio nas costas. Ele só vai conseguir fazer deitado mesmo ou numa poltrona com uma inclinação elevada das costas. O mindfulness permite que se faça meditação em várias condições. O importante da técnica é você estar presente e tentar respirar de uma forma consciente, e ainda assim, se você não tiver interesse de praticar uma meditação, há estudos na Universidade de Havard, dentro da psicologia positiva, que orientam que se você parar para respirar conscientemente, mesmo de olhos abertos, mesmo não tentando meditar, três vezes por dia, realizando cinco respirações lentas e profundas e em silêncio, isso muda positivamente o padrão de qualidade de vida das pessoas. Então, mesmo as pessoas que tem um bloquei com a meditação, podem usufruir dos benefícios.

Por fim, dr. João Segundo, o que o senhor destacaria como prioritário na atitude de um paciente que sofre de dor crônica?

Eu acho que ele sempre deve procurar um profissional bem qualificado para tratar a dor e procurar combater de frente o que está lhe incomodando. O autocuidado do paciente, ou seja, uma atitude ativa no processo é fundamental. A dica que fica para quem tem dor crônica ou sofre com uma doença oncológica é que o enfrentamento de forma positiva é importante. Você vai produzir melhores escolhas em relação ao tratamento e na sua vida como um todo.

Por Catarina Santiago 

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