Mel do mundo (e do Brasil) tem pesticidas, e isso coloca abelhas em risco

Usados na agricultura, os neonicotinoides afetam a reprodução e a vida das abelhas.

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Publicado em: 09/10/2017

Em nenhuma região do mundo está garantida a existência de mel livre de pesticidas. Um estudo publicado na revista "Science" nesta quinta-feira (5) encontrou neonicotinoides, agrotóxicos à base de nicotina, em 75% das amostras coletadas em todos os continentes (com exceção da Antártida) e em inúmeras ilhas isoladas. Entre eles, foi identificada a presença de inseticidas em amostras de mel provenientes de quatro localidades do Brasil. Das amostras de mel brasileiro com as substâncias, amostras da região sul eram as que tinham as concentrações mais elevadas.

De acordo com o estudo, as concentrações detectadas dos inseticidas estão dentro de limites permitidos para consumo humano na Europa. O problema, contudo, é que eles são extremamente prejudiciais para polinizadores, principalmente as abelhas. Usados na agricultura, os neonicotinoides afetam a reprodução e a vida desses insetos.

A equipe liderada por Edward Mitchell, do Laboratório de Biodiversidade do Solo da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, testou 198 amostras de mel. Dentro os inseticidas da família dos neonicotinoides encontrados estão acetamiprida, clotianidina, imidacloprida, tiaclopride e tiametoxam.

O veneno chega ao mel quando a dieta desses insetos está ligada às plantas tratadas com os pesticidas. No geral, 75% de todas as amostras de mel continham pelo menos um tipo de neonicotinoide. Das amostras contaminadas, 30% continham um único neonicotinoide, 45% continham dois ou mais e 10% continham quatro ou cinco.

"Esses resultados sugerem que uma proporção substancial de polinizadores mundiais provavelmente é afetada pelos neonicotinoides", dizem os pesquisadores. As amostras de mel com maior concentração de inseticidas foram as coletadas na Europa, América do Norte e Ásia.

"O estudo traz um cenário bastante preucupante. Os neonicotinoides são muito utilizados no Brasil, que vive uma situação séria de destruição de população de abelhas", comenta Luiz Claudio Meirelles, pesquisador de saúde pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Abelhas são importantes para cultivo de alimentos

Há mais de uma década, as populações de abelhas têm apresentado um alarmante declínio, levando a ciência a incansáveis estudos para descobrir os motivos. A queda dessas espécies é preocupante devido à função de polinização que elas exercem, muito necessária para o cultivo de alimentos, por exemplo.

Diversos estudos indicam que o uso de neonicotinoides está ligado ao declínio da população de abelhas na natureza. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), as abelhas são responsáveis por pelo menos 73% da polinização das culturas e plantas.

No Brasil, registros de redução do número de abelhas em decorrência do uso de agrotóxicos levaram o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) a restringir o uso dos inseticidas na agropecuária - principalmente nas culturas de algodão, soja e trigo. Em 2012, foi proibida a aplicação por aviões dos agrotóxicos imidacloprido, tiametoxam, clotianidina e fipronil. O órgão ainda está realizando a reavaliação ambiental dos produtos, que pode culminar em mais restrições. O uso já é proibido em épocas de floração ou quando observada a visitação de abelhas na lavoura.

Agrotóxicos podem ter potencial cancerígeno

A concentração de inseticida encontrada nas amostras de mel foi, em média, de 1,8 ng/g (nanogramas por grama). De acordo com os pesquisadores, é o suficiente para causar danos às colônias de abelhas. O teor de agrotóxicos chegou a 56 ng/g em algumas amostras. Nenhuma ultrapassou o limite máximo de resíduos tóxicos no mel estabelecido na Europa. No Brasil, não existe esse tipo de definição para o mel.

"São quantidades pequenas, mas é importante lembrar que o efeito crônico da ingestão de agrotóxicos não possui limiar seguro", diz Meirelles, da Fiocruz. A biblioteca médica do NIH (Instituto Nacional de Saúde, dos EUA) classifica o tiaclopride como potencialmente cancerígeno e relata que o tiametoxam levou ao desenvolvimento de câncer de fígado em estudos feitos com ratos. Os pesticidas citados no estudo da Science são liberados no Brasil. Segundo o estudo, a França é o primeiro país a iniciar processo de banimento do uso dos inseticidas.

Fonte: UOL
Enviada por JC
Edição: F.C.

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