Quoc-Dien Trinh: ‘cirurgias de próstata serão feitas apenas com um furo’

Médico vietnamita fala como cânceres urológicos podem ser tratados com o uso de robôs.

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Publicado em: 30/11/2017

Pesquisador do Instituto do Câncer Dana-Farber, da Universidade Harvard, o médico vietnamita Quoc-Dien Trinh esteve no Brasil para participar do se um Simpósio Internacional de Oncologia, em São Paulo, onde discutiu sobre os avanços nas cirurgias robóticas, em especial de cânceres urológicos:

O que há de novo quando se fala em cirurgia robótica na urologia?

De uma perspectiva tecnológica, estamos em uma fase incremental, com melhorias na parte ergonômica das plataformas robotizadas, por exemplo. Também estamos caminhando para sistemas que permitirão que essas cirurgias sejam feitas com um único furo, num futuro muito próximo. Finalmente, existem muitas plataformas robotizadas concorrentes que estão hoje em desenvolvimento, o que eu espero que leve a ferramentas melhores e mais seguras para os pacientes. Enquanto algumas empresas estão com foco na “assistência robótica”, outras estão buscando tornar os robôs autossuficientes em certas tarefas, o que é assustador e emocionante ao mesmo tempo. Já de uma perspectiva mais ampla da saúde pública, houve nos últimos anos alguns estudos interessantes questionando os benefícios da cirurgia robótica. Minha visão é de que não se pode parar o progresso, mas certamente se pode parar um pouco para refletir sobre como ele deve acontecer.

Que tipo de doenças podem ser tratadas com cirurgia robótica?

Nos Estados Unidos, estatisticamente, mais de nove em cada 10 prostatectomias (remoções da próstata) são feitas roboticamente. Eu acho que o uso da plataforma robótica realmente fez avançar nossa capacidade de fazer complexas cirurgias pélvicas reconstrutivas, como prostatectomia, com perda mínima de sangue. O mesmo pode ser dito sobre a nefrectomia parcial (remoção parcial do rim): no passado, muitos desses casos seriam considerados “impossíveis” de serem minimamente invasivos. O uso do robô permitiu que muitos pacientes mantivessem seus rins e, consequentemente, maximizassem sua função renal de longo prazo.

Qual o custo médio de uma cirurgia robótica, nos EUA ou no mundo? O preço está caindo?

Em geral, devido ao custo de aquisição de um robô e de equipamentos como “punhos” com tesouras ou agulhas robóticas, o custo continua sendo mais alto em comparação com a cirurgia convencional. Segundo o “New England Journal of Medicine”, o custo médio de uma nefrectomia (retirada do rim) com uso de robô nos EUA, por exemplo, é de aproximadamente US$ 15 mil. Sem o robô, o custo cai para menos de US$ 11 mil. Espero que o surgimento de mais plataformas robotizadas incentive a concorrência e, com sorte, reduza os custos.

Este mês, há no Brasil a campanha “Novembro Azul”, de conscientização sobre câncer de próstata. Qual o maior mito sobre a doença?

O maior mito é o de que ninguém morre por causa de câncer de próstata. É verdade que muitos morrem “com a doença”, em vez “da doença”, mas o câncer de próstata continua a ser a terceira principal causa de morte por câncer em homens nos Estados Unidos, por exemplo. Não pode ser tabu, mas também não pode ser vista como banal.

O que pode ser feito para que mais homens realizem exames de próstata?

Aumentar a educação sobre o assunto e falar mais sobre o câncer de próstata. Manter o tema em pauta é a única saída.

Acredita que o modo como as pessoas lidam com cânceres urológicos em geral muda de acordo com o país e a cultura?

Certamente. As crenças e percepções culturais desempenham um papel importante no processo de tomada de decisão dos pacientes. E as perspectivas podem variar consideravelmente de acordo com a raça, a educação e a renda. Por exemplo: em um estudo recente dos EUA em que eu estava envolvido, alguns indivíduos atribuíram muita importância à opinião de sua família, outros nem tanto. Para certos indivíduos, faltar ao trabalho por causa do tratamento do câncer é aceitável, mas, para outros, pode levar a uma ruína financeira e eles, por causa disso, escolhem não receber tratamento, o que é uma pena.

O senhor já teve um caso de câncer na família? De que forma lidou com isso, como médico e familiar?

Meu sogro, que aliás é brasileiro, nascido e criado no Recife, em Pernambuco, teve câncer de próstata. Passar por esse processo nos faz colocar uma série de coisas em perspectiva. Aconselhar pacientes com câncer de próstata é parte da minha rotina diária, mas é sempre preciso lembrar que, para quem sofre, essa doença tem um significado muito maior e ainda é muito misteriosa.


Fonte: O Globo
Edição: F.C.

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