Entrevista: “Escolhi ser médica por uma vocação intuitiva de ajudar outras pessoas”

A médica Sávia Normando fala sobre o trabalho pioneiro do seu doutorado e aborda ainda a importância de ter respeito, atenção e empatia com o paciente oncológico.

Publicado em: 06/09/2019

A médica Sávia Normando faz parte da equipe da Oncomédica e concluiu recentemente doutorado.

A medicina entrou na vida da oncologista Sávia Normando como uma forma de fazer a diferença. Ela abraçou a profissão por paixão e com a certeza de que poderia dar uma contribuição real à sociedade enquanto médica e pesquisadora. Integrante da equipe clínica da Oncomédica desde 2015, ela seguiu se aprimorando na área. 

Antes mesmo de concluir a residência médica em Oncologia Clínica na Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André (SP), em 2016, ela defendeu seu mestrado, cujo trabalho ainda resultou no 1º lugar no Concurso Nacional de Excelência em Oncologia em 2015, lhe proporcionando prêmio pela colocação no "Preceptorship em câncer de pulmão" na Universidade de Zürich, na Suíça.

Movida pelo desejo de contribuir para o avanço da pesquisa médica no Brasil, a dra. Sávia Normando seguiu investindo na vida acadêmica com seu projeto de doutorado, relacionando câncer gástrico avançado e biópsia líquida, iniciado ainda durante a residência em Oncologia e concluído em julho deste ano, aos 7 meses de gravidez, o que mostra tenacidade e foco.

Médica de fala ponderada e criteriosa, ela parece ter o temperamento perfeito também para a prática clínica. Nesta entrevista, a médica falou de sua pesquisa e da importância de ter respeito, atenção e empatia com o paciente oncológico.


O que fez a sra. optar pela medicina e se tornar oncologista?

Penso que escolhi ser médica por uma vocação intuitiva de ajudar outras pessoas. E no caso da Oncologia, o juramento de Hipócrates, que tanto ouvi no começo da minha formação, e que deve nortear a prática clínica de todo profissional da medicina, ganhou real sentido na vivência da minha especialidade.

A sra defendeu há poucos meses o seu doutorado, isso com sete meses de gravidez, como foi lidar com todas as demandas de pesquisadora, médica e ainda de futura mãe?

Eu acho que a primeira coisa é agradecer a Deus por ter saúde. Eu sempre costumo falar isso, de verdade, porque penso que com saúde aliada a objetivos pessoais e profissionais claros e bem definidos, conseguimos agregar os dois mundos de maneira muito tranquila. Eu tive a felicidade de defender o meu doutorado com sete meses de gravidez e isso foi possível porque podemos encontrar espaço para tudo desde que tenhamos foco e estejamos comprometidos a cumprir o que nos propomos.

A pesquisa do seu doutorado foi inovadora por utilizar um exame não invasivo para avaliar o resultado dos tratamentos aplicados ao câncer gástrico avançado. É isso mesmo? Explique no que consiste o seu estudo.

O câncer gástrico é um dos mais prevalentes no mundo e é descoberto, na maioria das vezes, em estágios mais avançados, quando o tratamento, em geral, consiste em quimioterapia paliativa. Geralmente, para avaliarmos se o paciente está respondendo à quimioterapia, ou seja, se o tumor está regredindo, lançamos mão de exames de imagem convencionais. Porém, em alguns casos, quando, por exemplo, o paciente está muito debilitado e o acesso a certos órgãos fica difícil, só podemos confirmar o retrocesso ou avanço da doença recorrendo a exames invasivos como a biópsia convencional. É nesse contexto que a nossa pesquisa se insere. Utilizamos um método revolucionário dentro da medicina de precisão, denominado biópsia líquida, que já vinha sendo utilizado em relação a outros tipos de câncer, mas que só agora, a partir do nosso estudo, foi aplicado, de forma pioneira, ao câncer gástrico avançado. A partir desse método foi possível avaliar, em tempo real, a resposta do paciente ao tratamento, e isso, através de um exame pouco invasivo, uma punção venosa simples de sangue, semelhante a um exame de sangue comum.

Sem adentrarmos muito nas questões técnicas da biópsia líquida, a sra poderia explicar como se consegue saber se a quimioterapia está realmente funcionando nos casos de câncer gástrico avançado?

Até 2014, quando iniciamos o nosso estudo, já havia evidências de que as oscilações verificadas na biópsia líquida indicavam alterações que demostravam se determinados tumores estavam piorando ou melhorando, isso relacionado ao tratamento de quimioterapia. Nos estudos anteriores ao nosso, as pesquisas, como falei, eram relacionadas a outros tipos de câncer, como o de pulmão, por exemplo. No caso do câncer gástrico avançado, a nossa pesquisa verificou que o método funcionava como um biomarcador, ou seja, como uma indicação de que a circulação no sangue de células tumorais havia aumentado ou diminuído. A partir disso, relacionamos esses resultados às sessões de quimioterapia. O estudo é piloto, a ideia é ampliar a pesquisa.

A oportunidade de estudar em um grande centro de pesquisa deve ter sido marcante. Como foi essa experiência? 

Tive o privilégio de ter estudado em um dos melhores centros do nosso país, e não posso deixar de agradecer ao meu orientador, o médico oncologista, professor dr. Felipe Melo Cruz, por ter acreditado nesse trabalho. A pesquisa no Brasil é feita com dificuldade e, muitas vezes, com incentivos restritos; assim, quando encontramos médicos e pesquisadores que apostam nisso, temos que comemorar. Sou realmente muito grata e estou cada vez mais convencida de que temos que abraçar esses estudos para podermos oferecer um melhor diagnóstico e um tratamento mais preciso aos pacientes oncológicos.

Enquanto médica, o que é importante dizer a um paciente com diagnóstico de câncer avançado, afinal, é um momento delicado em se que precisa de muito tato?

Quando um paciente chega com um diagnóstico recente de câncer avançado, o médico tem que ter o máximo de empatia com ele e seus familiares e, acima de tudo, tem que respeitar o tempo de compreensão desse paciente do seu quadro atual. É fundamental ter em mente que ele está recebendo uma grande quantidade de informação ao mesmo tempo, como: resultado de biópsia, resultado de outros exames, explicações sobre a doença, as formas de cuidado aplicados ao seu caso, enfim, são muitos detalhes. Assim, a preocupação deve ser, prioritariamente, situá-lo sobre o seu diagnóstico, sobre os passos a serem tomados a partir de agora, a escolha dos tratamentos, mas de um modo que respeite o tempo dele para absorver todas essas informações. Até porque o contato que temos com o paciente oncológico é muito próximo. Então, é um trabalho constante de atenção e empatia, e isso é feito por toda a equipe multidisciplinar da Oncomédica, não só por mim, mas todos os colegas médicos. Contar com profissionais comprometidos e atentos é decisivo para oferecer um tratamento humano e assertivo.

Por Catarina Santiago 

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